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É engraçado ver como algumas coisas são percebidas por aí. Em diferentes encontros nos quais estive notei que muita gente pergunta a mesma coisa: "Por que as streghe são tão reservadas?" ou "Por que é tão difícil encontrar informações?" ou ainda "Por que vocês não querem conversar?". Bem, posso dizer com segurança que eu quero e gosto de conversar. Gosto de deixar claro que o que estou fazendo é falar de mim e daquilo que eu conheço, li, estudei e ouvi falar. Sem dúvida não podemos falar por toda a comunidade streghe, mas podemos e devemos trocar idéias. Então, acredito que podemos dizer que não somos tão reclusas ou silenciosas como pensam. No limite, somos discretas em relação aos nossos grupos e famílias, afinal de contas, ninguém quer ver seus pais ou seus fazeres na capa de Caras.

Porém, deve existir um motivo para que sempre eu me depare com essa questão. E para conhecer esses motivos fui procurar os historiadores Julio Caro Baroja e o amado Carlo Ginzburg. O primeiro é um espanhol historiador e antropólogo que se destacou pelo enfoque histórico-cultural que deu ao estudo da etnologia da Espanha. O segundo é o historiador da Universidade de Bologna e da Califórnia. O campo de estudo dele é a História italiana e um de seus livros mais famosos faz um estudo os xamânicos benandanti.

Esses estudiosos foram a fundo em documentos da Europa latina trazendo informações sobre a visão que era divulgada sobre as bruxas. São basicamente documentos da Idade Média, predominantemente dos julgamentos ou investigações feitas sobre pessoas. Infelizmente foi exatamente nessa época, a Idade Média, que a idéia de bruxa como demoníaca e problemática foi difundida. E daí até hoje temos que lidar com um marketing negativo. Porém, trouxeram luz para as bruxas ou as pessoas que foram colocadas na fogueira ou em julgamentos. A grande coisa é que nos trazem também para os entendimentos que essas pessoas tinham das streghe nos dando assim alguma idéia do porque somos entendidas como, no limite, distantes.

Baroja no seu livro The World of the Witches procura uma visão das bruxas. E ele passa pela Itália. E lá nos coloca fatos interessantes. Baroja descobriu que as bruxas eram muito entendidas como seguidoras da deusa Diana. Também eram vistas nas ciganas ou naqueles que trabalhavam as artes divinatórias. A questão é que o mundo das bruxas, das streghe, foi perdendo o caráter das pessoas que conheciam artes de cura ou advinhação e com O Martelo das Feiticeiras ganhou o caráter demoníaco e satânico, que acabou por levar Diana a ser uma consorte do Diabo ou como uma face de Lilith – uma salada mista. Uma outra idéia interessante sobre as streghe é que elas não têm um caráter rural ou campestre. Elas são feiticeiras das cidades que se metiam em questões urbanas como casos de amor ou morte de crianças. Essas bruxas se encontravam em bosques para o Sabath de Diana e para tanto, viajavam para o campo em vassouras ou bodes.

Ginzburg para entender o fascinante mundo dos andarilhos da noite, os Benandanti também fez pesquisas nos documentos da inquisição. Lá descobriu que os chamados bruxos, no sentido de "aqueles que fazem mal", os malandanti eram temidos por sua atitude de amaldiçoar plantações. Assim, se fala de vôos noturnos, batalhas travadas com sorgo e erva-doce sobre os campos. Nas pesquisas de Ginzburg, como nas de Baroja, Diana é encontrada como Grande Deusa das bruxas e que elas os seguiam para o Sabath noturno, um ritual de adoração ao Diabo e à Deusa. Porém a separação que Ginzburg encontra, entre os andarilhos do bem e os andarilhos do mal, nos ajuda a entender um pouco das figuras benevolentes que vemos até hoje, como as benzedeiras, que tiram o mal-olhado das pessoas, às figuras maléficas que podem, com um olhar ou toque, azedar o leite da vaca e criar grandes problemas financeiros ou psicológicos a uma família.

Assim, podemos ver que a figura da bruxa italiana sempre esteve ligada a passeios noturnos, maldições e a deusa Diana. E qual é a nossa surpresa que muitas dessas visões são dadas até hoje. Vide a Diana Nemorensis de Nemi ou a Diana mãe de Aradia. Muitos ainda pensam que Diana é a grande deusa das streghe, o que pode variar de tradição a tradição.

Penso que ai possam viver várias idéias: será que as streghe são reclusas porque fazem o mal? Elas realmente lidam com maldições? Será que não querem que saibamos o que fazem porque têm medo que roubemos seus segredos? Será que são segredos macabros?

O que eu posso dizer com segurança é que os segredos são segredos porque os ouvidos de quem está de fora podem não estar totalmente pronto ao que vai se dizer. Não se trata de egoísmo, mas de discrição e de manutenção, pois quem lê um símbolo ( e as práticas são imensamente simbólicas) pode dar a ela qualquer interpretação que quiser. Não tenho certeza se quero coisas da minha família sendo interpretadas de qualquer forma. Prefiro que me perguntem para que eu possa me fazer entender.

O que vale pensar é que a palavra strega tem, até hoje, sim um caráter maléfico associado a ela e que, talvez, seja o trabalho de quem lida com a Bruxaria Italiana trabalhar isso. Sinto que precisamos sim explicar mil e uma vezes que não estamos envolvidas com nenhuma figura satânica, por exemplo. Ao mesmo tempo que, precisamos também explicar que muitos de nós que praticam a Bruxaria Italiana também não cultuam Diana como Grande Deusa e que Aradia nem sempre é lembrada nos cultos. Alguns de nós cultuam deuses romanos, outros etruscos, outros têm santos, outros vão pelos caminhos helênicos – como eu. Mas que a tradição das práticas de benção e maldições, de rezas, feitiços e amuletos que correm há muito dentro das famílias ou grupos ou clãs estão dentro de nós, das streghe e stregoni que conhecem essas práticas e crenças e que hoje são mantenedores desses caminhos: sejam eles (neo)pagãos ou não.

Que a Luz de Apollo nos inspire,
Pietra

Bibliografia consultada:
BAROJA, Julio Caro. The world of the witches. Phoenix Press, 2001.
GINZBURG, Carlo. Os andarilhos do bem. São Paulo: Cia das Letras, 1988.

Aline MartinsPietra di Chiaro Luna - Sou uma strega, uma entre os diversos streghe e stregoni de nosso enorme país. Estudo e pratico Bruxaria desde 1996 e a partir de 2000 me dedico exclusivamente aos estudos e práticas de nossa Mamma Itália, principalmente de sua antigüidade pagã.

Trilho caminhos de honra aos meus ancestrais e seus antigos Deuses, com suas tradições e crenças. Também sou pedagoga de formação. Coordeno listas de discussão, uma comunidade no Orkut e participo de sites como colunista e dou palestras e cursos em espaços esotéricos, além de ser autora do site Stregoneria Brasileira. Também sou apaixonada por oráculos, principalmente o tarô, cultura cigana, yoga e dança do ventre.
www.stregoneriabr.com


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